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Eu vivi um Brasil sem racismo

Giuliana Bergamo

21/11/2019 08h45

O Brasil já foi um país sem racismo

Na década de 1980, quando vivi minha primeira infância, não tinha isso de negros serem pessoas inferiores. Quer uma prova? Eu, menina branca, ganhei uma boneca preta, veja só. Tinha cabelinhos bem cacheados, um vestidinho rosa, mas veio sem nome. 

O problema foi resolvido rapidamente: batizaram minha boneca com o nome de Maria. Era uma homenagem à mulher que vivia na casa dos meus avós, no quarto do andar de baixo, perto da lavanderia, que era tratada "como se fosse da família". Maria era tão querida por todos nós que deu nome à boneca. Que coisa bonita!

Na minha família, ser "mulata" era até um elogio. Um elogio que eu, menina branquela, recebia. Era quando, em tempos de Carnaval, eu sambava em frente à televisão. "Que bonitinha, samba feito uma mulata", diziam, e eu ficava toda pimpona. 

Não tinha racismo na minha infância. Eu tinha "até" um amigo negro na escola particular onde eu estudava, veja só. O nome dele é Daniel, mas ele era conhecido pelo sobrenome que herdou do pai, descendente de japoneses: Quiyan. Engraçado, né? Um negro com nome japonês… Pois é, muita gente também achava. Acostumamos com isso.  

Não tinha racismo na minha família de brancos. A gente até vivia reforçando as semelhanças entre nós e os negros escravizados. Assim como os africanos, diziam meus parentes, nossos antepassados também vieram para cá em navios apinhados de gente. 

Assim como os negros, meus parentes — inclusive meu avô ainda menino — foram escravizados nas fazendas de café. Tiveram que fugir na calada da noite para tentar ganhar a vida na cidade. Conseguiram prosperar graças ao trabalho suado. O trabalho transforma, o trabalho salva o homem, ouvi dizerem. 

Mas isso tudo foi na minha infância sem racismo. Depois as coisas mudaram. Tudo tão estranho… Com a maturidade, veio essa coisa chata de olhar para a vida com certa crueza, sem as fantasias que criam para a gente quando somos pequeninos. Cresci e troquei de pele. Continuo branca, translúcida até. Mas o racismo foi aparecendo.

Seria mesmo uma homenagem chamar a boneca preta pelo nome de uma trabalhadora doméstica? Não é. Esse simples e aparentemente singelo ato está carregado de racismo. Ele reforça a ideia de que o lugar de uma preta (seja mulher, seja boneca) é o da empregada doméstica. Ou o da mulata que samba "com naturalidade" no Carnaval. 

É racismo, sim, achar que a história dos europeus que trabalharam em condições hoje consideradas análogas à escravidão é igual à dos africanos! Os europeus sofreram, sim. Eu não nego a dor da minha família ao deixar, em condições paupérrimas, sua terra natal para tentar a vida em um país desconhecido. 

Não nego o quanto deve ter sido sofrido para eles serem enganados e submetidos a condições tão precárias de trabalho e de vida. Deve ter sido duro sobretudo para a nonna, uma mulher com muitos filhos, cuidando de todos sozinha em uma situação tão adversa.

Só que tudo isso está bem longe do que viveram os africanos. Eu não tenho propriedade para ir à fundo nas diferenças. Mas só para começar: enquanto meus parentes decidiram deixar sua terra, os negros foram arrancados do lugar onde viviam. A maioria esmagadora de seus descendentes não faz a mais remota ideia de qual parte da África partiram seus antepassados. 

Chegando aqui, não tiveram o "privilégio" de trabalhar em família, como fizeram os europeus. Mulheres foram separadas dos maridos, dos filhos. Eles não foram explorados, foram açoitados, estuprados. Quando fugiam, não prosperavam na cidade. Eram mortos ou sofriam penas ainda piores do que perder a vida. 

Meu avô trabalhou muito, é verdade. E trabalhou até ficar bem velhinho na bicicletaria que abriu ainda jovem. Sujeito carrancudo, trocava pouquíssimas palavras com a clientela, esbravejava, ouvia rádio e óperas enquanto trabalhava. Lia, é verdade. Eu mesma cheguei a presenteá-lo com livros da Zélia Gattai, que ele recebia com euforia no fim da vida. Mas escrevia pouquíssimo porque, acredito, não chegou a ser alfabetizado.

Fico imaginando como seria se ele fosse um negro dono de uma oficina. Será que os clientes achariam graça no "negão" carrancudo, semi-analfabeto e que ouvia canções africanas enquanto trabalhava? Ou será que sua música seria condenada a fazer parte de alguma seita maléfica? Ou será que as pessoas, principalmente as mulheres, teriam medo de chegar perto daquele lugar?

Ontem, enquanto escrevia este texto, troquei mensagens com meu amigo Daniel Quiyan. A vida adulta nos distanciou, mas esse negócio de redes sociais tem umas mágicas bem bonitas. Pedi a ele que lesse o que eu estava escrevendo e quis saber mais sobre o projeto que ele está desenvolvendo chamado "Cotas no primário", para garantir o acesso de crianças negras à educação infantil. 

Contei que nunca vou esquecer de quando a gente, já adolescente, passava a tarde com a turma no shopping. Fazíamos todos a maior zona. Mas o segurança sempre chamava a atenção dele. Também não vou esquecer do episódio em que o carro do pai dele foi parado pela polícia que achou suspeito um casal de brancos com um rapaz negro no banco de trás. 

"Quando lançaram o macaco Murphy, era melhor não ter nascido…kkk", disse Quiyan, em referência ao brinquedo que fez sucesso em nossa infância. "Mas eu não quero falar a partir do lugar de vítima. Quero falar desses assuntos com leveza e até humor… ácido. Gostaria que todos tivessem a mesma oportunidade que eu tive".  

A oportunidade que o Quiyan teve chama amor. Os pais dele o adotaram de uma mulher negra que não tinha condições de criá-lo. Com muito amor, ele cresceu um menino preto em uma família meio japonesa, meio italiana. Com muito amor, ele foi matriculado em uma boa escola. Falhou como aluno às vezes (culpa da escola, eu acho!), mas foi acolhido sempre que precisou. 

"Eu queria ter sido um aluno excelente para justificar a minha ideia… não fui. Mas tive sempre alguém pra me dar a mão para recomeçar… isso é fundamental. E isso é parte da teoria que eu gostaria de transformar em prática. Estou no caminho", escreveu.  

Quis procurar Maria (que, na verdade, tem outro nome, mas eu não me senti no direito de mencionar sem pedir autorização a ela, então troquei) também, mas não consegui a tempo de publicar este texto na data prevista. 

Queria saber dela se compactua com a ideia de que, na minha infância, os adultos faziam de conta que não havia racismo entre nós. Mas não vou abandonar o objetivo. Quero encontrá-la para matar a saudade, saber como anda a vida e falar desse assunto que branco adora tentar esconder, mas, vixe, não vai dar, não.  

Afinal, se racismo é coisa de branco, porque fomos nós que inventamos esse horror, como ouvi Preta Rara dizer durante um evento de Universa, somos nós — e não os negros — que temos o dever de falar sobre ele todos os dias, sem escamotear com histórias mal contadas. Para que fique cada vez mais evidente e possa, assim, ser combatido. Porque o Brasil, infelizmente, é um país muito racista.

Sobre a Autora

Giuliana Bergamo é jornalista e editora de Ecoa. Em mais de 15 anos de profissão, se orgulha por ter varrido o país (e uns cantos fora dele) em busca de boas histórias para contar. Elas foram publicadas nas reportagens que produziu para os veículos pelos quais passou – Veja, Veja-SP, BandNews FM, Viagem e Turismo. Entre os anos de 2015 e 2018, comandou o Prêmio CLAUDIA, então a maior premiação feminina da América Latina.

Sobre o Blog

Causos, dicas e reflexões sobre as crianças e o lugar da infância na construção de um mundo melhor.

Giuliana Bergamo